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LINGUAGEM CORPORAL para FORÇAS DE SEGURANÇA – I parte.

Forças de segurança

 

Este artigo visa mostra alguns comportamentos corporais de suspeitos em aeroportos, rodoviárias, metrô, bares etc. Nesta primeira parte vamos analisar como a observação geral deve ser realizada.

 

Introdução

Nos últimos anos tenho observado o crescente interesse pela linguagem corporal nos mais diversos setores da sociedade brasileira. Advogados, vendedores, psicólogos, policiais etc. Com algumas séries de televisão, em especial Lie to me, os jovens passaram a ser interessar pelo assunto e dentre eles vejo surgir diversas “feras” no assunto, me impressiona a capacidade de compreender a linguagem corporal, mais ou menos como fazem com a linguagem de computador.

Por outro lado noto o surgimento de diversos “picaretas”, infelizmente não tenho outro nome para os falsos especialistas que vendem a LC como salvação do mundo, técnica com 95% de acerto na descoberta da mentira (isto é falso), que são amigos de policiais americanos, realizaram curso no FBI, Cia e por ai vai. Quando questionados fogem ou mostram toda a falta de conhecimentos com respostas estapafúrdias. Quanto eu e outra psicóloga questionamos um destes falsos especialistas sobre as percentagens de acertos, simplesmente fomos deletados de Facebook dele. Sentimos muito, pois as respostas aos questionamentos eram piadas hilariantes.

Esta argumentação se faz preciso, pois a linguagem corporal é um poderoso instrumento de conhecimento humano, mas falho, por diversos motivos, entre os quais a competência técnica de quem a utiliza, tempo de reação para se observar determinada expressão, local, pessoas etc.

 

 

História – Richard Jewell

O herói de Atlanta que virou suspeito e voltou a ser herói.

Richard-Jewell

Durante as Olimpíadas de Atlanta em 1996, Richard Jewell atuava como segurança em meio período. Durante um de seus plantões, observou uma mochila suspeita. Tomou a iniciativa de avisar a polícia e retirar o pessoal da área, Pouco tempo depois a mochila explodiu. O “cara” virou herói nacional, passou a dar entrevistas em redes de televisão, autógrafos etc. Tornou-se celebridade, até que por incompetência em descobrir os responsáveis, o FBI o colocou como principal suspeito. Durante meses foi seguido, teve sua vida vasculhada de ponta cabeça, a reputação foi para o espaço, até que por foi inocentado. O que se destaca aqui é a total incompetência, em descobrir se Jewell falava a verdade, daquele que talvez seja o mais profissional de todos os serviços de segurança no mundo.

Com esta história desejo mostrar o cuidado que devemos ter ao utilizar a linguagem corporal em qualquer atividade. Não vá sair por ai acusando quem quer que seja ou tirando conclusões imediatas sem qualquer tipo mais apurado de raciocínio.

Alertados sobre a sensibilidade do tema, vamos para a segunda parte.

 

A postura do observador

Observar pessoas é uma técnica que deve ser desenvolvida ao longo dos anos, durante toda a vida.

O FBI suspeitou de Richard Jewell por vários motivos, inclusive o dele não ter competências e conhecimentos para descobrir a bomba. Achou que o mesmo plantou a bomba para “descobri-la” e assim ganhar prestígio. Suspeita talvez legítima, mas que poderia ser solucionada de imediato, como foi o caso do enfermeiro americano Ted Maher. O ex-integrante das Forças Especiais americanas, iniciou um incêndio na suíte do banqueiro Edmond Safra em Mônaco. Desejava salvar o banqueiro e ser tratado como herói, mas foi condenado pelo crime.

Mesmo com o desenvolvimento de técnicas ao longo do tempo, existem pessoas que são capazes, por simples processos intuitivos de descobrir determinados tipos de comportamentos. Se por um lado a intuição pode ajudar muito, a técnica é a principal arma para observar pessoas e avaliar suspeitos.

O bom observador está constantemente ligado a tudo que ocorre ao seu entorno, todavia agindo assim 24 horas por dia entraria em um estado de prontidão que o levaria ao colapso.

Para isto o ideal é que tenha três tipos de atitudes:

            – Curiosidade

            – Especulação

           – Alerta – prontidão

 

Estas três fases permitem que o observador possa atuar de imediato qualquer que seja o lugar (aeroportos, shoppings, casas noturnas etc.) Também facilita passar de uma fase para outra em segundos.

 

Fase I – Curiosidade

Observar com atenção tudo aquilo que ocorre ao seu redor. Tentar sentir o entorno. Muitas vezes em tom de brincadeira falto que devemos utilizar o “bigode de gato”, qualquer tipo de vento que o atinge é acusado. Portanto todos os sentidos são utilizados, inclusive quando interagimos com as pessoas ao nosso redor.

A fase de curiosidade é saudável, pois evita que fiquemos em prontidão durante todo o tempo. Imagine um agente de segurança em prontidão durante 12 horas, no final do dia ou da noite o estado de tensão não vai permitir que tenha a tranquilidade necessária para fazer triagens e decidir.

Nesta fase observe com atenção tudo aquilo que for diferente ou por demais igual. Tudo que sai da média. Não se restrinja. Realize as triagens, ou seja, observe tudo, mas descarte aquilo que é  e não é essencial.

Paranhos, um companheiro de armas certa vez estava de plantão, como medida extra de segurança foi solicitado que todas as pessoas se identificassem e mostrassem os documentos.

Pois bem, quando eu chegava ao quartel, Paranhos apontou o fuzil disse em alto e bom tom:  Camargo, identifique-se!

A atitude muitas vezes precisa ser passiva, tente sentir o entorno, os cheiros, os sons, os gritos, as pessoas que estão ao redor. Observe os movimentos, as roupas, as posturas, o material que carregam consigo.

Não deixe de avaliar os grupos, como conversam e interagem. Mães com filhos, bagagens etc.

Observe com atenção os detalhes das roupas. Há tempos, na cidade do Rio de Janeiro, os bandidos passaram a entrar nos bancos de ternos recortados e de grifes para realizarem os assaltos. Em um dos vídeos notei que a mão do assaltante era extremamente calejada e não se coadunava com a roupa e a pasta de couro de uma famosa grife. Cuidado, não tire conclusões precipitadas, os detalhes enganam, mas também revelam muito mais do que pensamos.

Foque naquilo que sai do normal ou que é exageradamente normal. Lembre-se da frase que diz que “em uma inspeção quando tudo está certo demais, é porque existe algo errado”.

A curiosidade não deixa que o estresse tome conta do observador e assim ele tem capacidade de avaliar com mais eficiência durante maiores períodos de tempo.

Na fase de curiosidade tente delimitar o seu entorno. Você não vai conseguir observar todas as pessoas no jogo de futebol. Selecione o campo de ação em seu entorno. Também evite observar em giros de 360º, pois vão perceber que você procura algo. Não faça movimentos bruscos, a fase de curiosidade é light por assim dizer.

O tempo desta fase pode durar todo o dia, mas é importante, pois com ela você vai passar para a outra fase. A duração algumas vezes é de alguns segundos e você de imediato muda para a especulação. Mas isto nem sempre ocorre, outras vezes o agente entra direto na fase de alerta-prontidão, conclusão e ação.

 

Fase II – Especulação

Esta fase pode ou não ocorrer e a duração também é de alguns segundos em muitos casos. O tempo entre a primeira a terceira fase algumas vezes é de segundos.

Basta observar o suspeito com suposta arma – pode ou não existir especulação, porque ele tem a arma? será um agente? um assaltante? trata-se de um policial de folga?

No ano de 2011 um soldado de Rota (tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo), em folga, foi morto por policiais da própria corporação. Tentava ajudar os mesmos em um assalto e foi confundido com os bandidos. Neste caso já existia o estado de prontidão, alerta – ação e conclusão dos outros policiais, que infelizmente não tiveram tempo para realizar qualquer outro tipo de triagem.

Aqui você tem a noção da importância de não ficar durante 24 horas em estado de prontidão.

A fase de especulação é mais específica. Na de curiosidade a observação é quase aleatória, direcionada para determinados aspectos e que nem sempre são selecionados, mas que chamam a atenção, como um grupo de pessoas falando alto, ou alguém como tatuagens. (tatuagens não significam que a pessoa seja suspeita, apenas chamam a atenção pela curiosidade que despertam). Voltarei a falar em tatuagens, pois em inúmeros vídeos analisados, os bandidos escondem as tatuagens.

Na fase de especulação alguns questionamentos são feitos internamente: Porque? Como? Onde?

No meio da multidão você vai ter que procurar as mais sutis diferenças Em determinado aeroporto americano passaram durante o ano 27 milhões de pessoas, apenas sete eram terroristas. Disto resulta em enorme dificilmente apra realizar certos tipos de especulação. Direcione seus objetivos e as perguntas nesta fase de maneira precisa. Para tal observe as diferenças, tanto as mais evidentes, como as mais sutis.

No filme “Taxi Driver”, o personagem de Robert de Niro resolve matar um candidato a presidente dos EUA. Veste-se com uma jaqueta militar e o cabelo é cortado como moicano. Lógico que desperta atenção do serviço secreto e necessita fugir.

Mas em outro caso no Brasil, assaltantes se passam por guardas de segurança para entrar em uma transportadora; além da linguagem corporal desengonçada, o cordão que está ligado a arma passa apenas por cima da divisa nos ombros e não entre os braços. Aparentemente algo simples, mas todos sabem que com um simples puxão ao cordão e a arma seriam arrancados do assaltante. O cordão passa pela divisa e entre os braços.

Para chegar a este ponto, são necessários anos de vivências e experiências, pois repito, tudo ocorre no tempo de alguns segundos. Portanto, especule rapidamente e não se afobe para não cometer erros.

 

Fase III – Alerta – prontidão

Evidente que o agente de segurança, seja ele policial, guarda de trânsito, agente federal etc., consegue ficar neste estado durante todo o tempo. Mas é certo que o desgaste é imenso e muitas vezes quando necessita agir, não tem o discernimento preciso; depois de 11 horas em prontidão, o julgamento pode ser falho.

Aqui o alarme vermelho acabou de soar, as decisões também são feitas em poucos segundos. Em assalto a uma joalheira, a atendente desconfiou da pessoa que entrou na loja, olhou atentamente e observou que o sapato não combinava com o terno, após isto acionou o alarme de segurança.

No estado de prontidão a adrenalina sobe em altos graus. Assinalo que este estado é sempre desgastante.

O sistema límbico é o responsável pela nossa sobrevivência. Diante de qualquer ameaça, ao longo de nossa evolução, tomamos três atitudes: fugir, paralisar ou lutar. Por incrível que pareça, a mais comum de todas em nossa luta pela sobrevivência é fugir. Portanto não tenha medo de ser chamado de covarde, certamente você não é. Observe qualquer confusão em estádios de futebol, brigas na rua etc. A maioria das pessoas se afasta de modo instintivo. Embora não seja descrever este tipo de comportamento neste artigo, lembro que os integrantes das melhores e mais treinadas tropas de elites no mundo, quando entram em combate real, a maioria não atira no primeiro momento. A paralização é total. Com este comportamento tentamos nos esconder do perigo. O terceiro é lutar, no caso é tomar uma atitude mais decisiva.

Cuidado não seja intempestivo, fique calmo se observar algo, você deve ter em mente qual a atitude a ser tomada. Alguns supermercados treinam seus agentes para não fazer absolutamente nada quando observam determinadas pessoas furtando mercadorias. Simplesmente esperam o momento oportuno para abordar a pessoa e evitar confusões na loja. Ou seja, a regra é responder de maneira proporcional ao que ocorre. O objetivo não é bancar o herói, ser o mais esperto etc. Evite isto.

A linguagem corporal é instrumento científico e assim é encarado. O trabalho em equipe produz resultados altamente satisfatórios.

No próximo artigo vamos falar de modo específico na linguagem corporal dos suspeitos.

 

 

Paulo Sergio de Camargo
Grafologia – Linguagem Corporal

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