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LINGUAGEM CORPORAL PARA FORÇAS DE SEGURANÇA – III parte.

A linguagem corporal de suspeitos.

Nesta série de artigos abordamos as principais características dos suspeitos e a linguagem corporal. A observação deve ser bastante cuidadosa, em especial para não criarmos determinados estereótipos. Evidente que existem sinais confiáveis, contudo muitos deles podem ser (e muitas vezes são) contraditórios.

O fato de alguém esconder a tatuagem é apenas isto: “esconder a tatuagem”. Os motivos são vários: medo, vergonha, arrependimento, ser aceito socialmente etc.

O assaltante (ou suspeito) muitas vezes nem se preocupa em esconder suas intenções e parte direto para ação, outras “esquece” as câmeras de segurança. Vamos falar um pouco delas.

Câmeras de segurança

Os principais especialistas em segurança dizem que as mesmas inibem, mas não impedem qualquer tipo de crime.

Pense que você está em uma loja: Quando observamos a placa “Sorria, você está sendo filmado.”; de imediato procuramos a câmera, ou até mesmo deixamos isto de lado. Trata-se de um gesto quase instintivo. O suspeito ao contrário, tende a baixar a cabeça e desviar o olhar. Este detalhe é importante para a avaliação.

Observe se a pessoa desvia intencionalmente a rosto da câmera, o mais comum além de olhar para baixo é virar de costa para a mesma, ou seja, olhar do lado contrário. Isto ocorre especialmente quando a câmera é visível.

Este sinal tem que ser conjugado com os demais. Atualmente existem câmeras que escaneiam o rosto e além da identificação da pessoa, avaliam a grau de tensão da mesma.

Caminhar

Em suas pesquisas Allport e Vernon (1953) relatam que falar, andar e escrever tem a mesma gênese nas pessoas. O indivíduo não fala rápido, anda lento e escreve moderado, a velocidade é praticamente a mesma nos três casos.

Os autores propõem uma experiência interessante: assine em uma folha três vezes, cada assinatura abaixo da outra e depois tente copiar a última. Certamente vai perceber que ela saiu diferente. Isto ocorre porque houve uma tentativa de se adequar determinado comportamento.

Desmond Morris solicita no livro “Manwatching. A field guide to human behavior”. Elsevier, 1977) que a pessoa tente imitar alguém caminhando lentamente sobre um linha. Poucos vão fazer isto de modo natural. Apenas bons atores realizam o movimento com perfeição.

Para melhor compreensão ainda recorremos a Allport: “a maioria dos movimentos têm características não expressivas e expressivas’, e que, por exemplo, enquanto o piscar é comum a todos os homens, existem maneiras pessoais de piscar.”

Com esta pequena introdução você entende que a não ser que o suspeito seja um ator de primeira, todas as vezes que tentar disfarçar determinado comportamento, certamente provocar “pequenos vazamentos”, ou seja, vai falhar diante de observadores mais astutos.

Há algum tempo o helicóptero do programa Cidade Alerta, Datena, acompanhou um suspeito de assalto pelas ruas de um bairro paulistano. Tentando parecer despreocupado, o assaltante balançava os braços e gingava o corpo. Ao mesmo tempo em que encolhia a cabeça entre os ombros. Em nenhum momento olhou diretamente para a aeronave.

Em resumo, ao tentar parecer natural, normalmente o suspeito vai falhar.

Observe também as mãos, se elas estiveram tensas e não combinar com o andar, existe algo de errado na pessoa. Contudo lembro que este algo de errado não quer dizer que a pessoa seja bandido, terrorista ou traficante, pode ser apenas alguém que precisa embarcar para ver um parente que está doente.

Olhar

Existe um mito que diz que o mentiroso não olha diretamente para o outro. Evita contato visual direto. Isto nem sempre é verdade, pois a pessoa tímida algumas vezes tem por costume não olhar diretamente para o interlocutor.

O subordinado nem sempre olha diretamente para o chefe, trata-se de um sinal de respeito. Encarar o outro por muito tempo é considerado um desafio. Em algumas monarquias não é permitido olhar para o rei diretamente, a pessoa tem sempre que ficar com os olhos abaixados. O olhar para baixo é interpretado, em alguns casos, como submissão.

No momento do crime normalmente as vítimas não olham para o bandido, além de evitar o desafio, no futuro irão reconhecer a vítima; portanto correm risco de morte.

O olhar dos suspeitos, normalmente é “suspeito” por assim dizer. Não é feito diretamente, sempre observa os lados, não raro olha para trás, parece estar sendo perseguido. O movimento da cabeça é rápido para os dois lados, olha à direta e de imediato vira para a esquerda. Para esconder a face, além do capuz, muitas vezes coloca a mão sobre ela, “ajeita” os óculos. Finge estar fazendo algo para se virar e ficar de costas para o possível observador.

A pessoa despreocupada liga o celular e anda (nos aeroportos, por exemplo) de maneira espontânea, caminha procurando informações, observando letreiros etc. Quando não quer ser notada, tapa com a mão a boca junto a celular, se vira para a parede ou se afasta das pessoas. Em resumo, quer privacidade.

O suspeito normalmente vai tentar parecer isento durante o check-in, entrada em um condomínio, bar etc. Então tenta fazer a “face neutra”, aquela que não transmite nenhum tipo de emoção. Na realidade trata-se de uma espécie de “mascara” que a pessoa utiliza para não transmitir emoções (informações) sob seu estado de ânimo para os demais.

Ou seja, tentam se controlar o máximo para não transmitir insegurança.

O “músculo da dificuldade”

Darwin em seus estudos sobre a face humana chamou de “músculo da dificuldade” quando a pessoa ao contrair este músculo baixa e une as sobrancelhas. Ekman concorda com Darwin quando este diz que a pessoa está em qualquer tipo de dificuldade mental ou física. Indica perplexidade, confusão, determinação, concentração. (Ekman)

Em momentos de grande tensão, ao passar as malas pela alfandega, o suspeito sem motivo pode mostrar esta face.

Muitos suspeitos utilizam de óculos escuros e grandes para não serem identificados, inclusive para esconder o uso de drogas. Há anos um policial de São Paulo identificou o suspeito antes de assaltar uma farmácia. Os olhos do marginal estavam vermelhos e inchados, antes de tentar o roubo utilizou várias drogas, entre elas a maconha. Cuidado: a poluição das grandes capitais deixam os olhos irritados, isto não torna ninguém suspeito.

Outro gesto a ser observado é o de “esconde-esconde”, o suspeito coloca as mãos na face e olhar para determinado lado e depois esconde o rosto novamente. Muitas vezes o gesto é feito com revistas ou jornais. Torno a alertar, isto pode ser apenas um jogo de paqueras entre duas pessoas ou do jovem que olhava as pernas da modelo sentada no outro lado do saguão.

Nos próximos artigos vai falar sobre outras características que precisam ser observados com grande cautela.