Linguagem Corporal – Linguística textual – Presidente Dilma Post 130 02.2015

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Linguagem Corporal – Linguística textual – Presidente Dilma Post 130 02.2015

“Nunca deixamos de esconder que era 4,5%”. Dilma Roussef.

 

A frase por si é antológica. Já entrou no imaginário da literatura política brasileira e vai adentrar aos séculos seguintes.

O especialista em linguagem corporal não deve e não pode se influenciar por posições políticas ou ideológicas quando realiza suas análises. Nas eleições para presidente da República em 2014, observei que alguns analistas utilizaram o estudo da linguagem corporal como meio de apoiar seus candidatos. Pior impossível.

Volto à frase da presidente. Fica por demais evidente que os políticos brasileiros são um “prato cheio” para nossa especialidade.

Para analisarmos mentiras contamos com várias técnicas, além da linguagem corporal propriamente dita. (polígrafo, por exemplo.)

Existe a técnica chamada “análise do discurso”, “análise do texto”, “avaliação de conteúdo”, “análise do conteúdo” etc. Nos meios acadêmicos: “linguística textual”.

Os americanos chamam de “análise linguística textual” ou também “Linguistic Statement Analysis Technique, LSAT.” Não existe nome oficial no Brasil.

É correto afirmar que mentir gasta mais energia do que falar a verdade. O fato verdadeiro já está guardado em nosso cérebro, não é necessário qualquer tipo de esforço para “buscar” àquilo que já sabemos de antemão. Todavia mentir exige a necessidade de criar, o cérebro necessita de mais energia. A estória contada tem que ser plausível, não deve deixar furos.

O mentiroso procura de todas as maneiras não deixar “cabos soltos” em suas falas, ou até mesmo esquece de maneira estratégica dados ou se corrige quando perguntado – diz que não é capaz de se lembrar de tudo.

Nos pontos em que fala a verdade, tende a reforçar na intensidade dos gestos e da fala.

Como na maior parte do tempo falamos a verdade, quando se mente os padrões corporais e de voz tendem a se modificar. (Isto nas pessoas normais.)

Em outras palavras, as estórias que vivenciamos são descritas de maneira diferentes daquelas que imaginamos. Descrevemos de maneiras diferentes estas estórias. O cérebro cria padrões diferentes para a estória verdadeira (que está acostumado) e para e mentira (que não está).

Ao falar mentiras sobre  uma experiência que não aconteceu, as estórias são mais pobres, o mentiroso não as vivenciou; portanto as falsas histórias normalmente são  qualitativamente diferentes de histórias verdadeiras. (reforço aqui que isto se aplica a pessoas normais)

Disto resulta, por exemplo, quando a pessoa conta a estória pela primeira vez, se torna mais fácil pegar a mentira. Bandidos quando presos e interrogados na mesma hora, tendem a contar a estória verdadeira; quando inventam, as mentiras são facilmente observáveis.

Para tal alguns especialistas “aconselham” seus cumplices para treinar as mentiras que vão dizer com bastante antecedência, fica mais difícil de serem pegos. No Brasil existem consultorias para investigados em CPIs do Congresso.

Aqui estamos falando de modo genérico, pois as variações são múltiplas e ocorrem de pessoa para pessoa.

Antes da pausa tenho que alertar que este método, como a maioria dos demais, contém limitações importantes. Assim não tente, sem experiência, fazer este tipo de análise e chamar alguém de mentiroso.

Pausa importante.

Em seu livro “Alma e Escrita”, Ania Teillard escreve uma das mais lindas frases da grafologia mundial:

“O consciente é uma casca de noz navegando no tortuoso mar do inconsciente.”

Para muitos autores, nossa mente consciente controla apenas 5% de nossas capacidades cognitivas, o restante está no inconsciente.

De acordo com o Dr. David Livingstone Smith para a aquisição das habilidades de nossa capacidade de detectar mentiras, temos antes que realizar um “desaprendizado” do aprendizado.

“Temos que desenvolver o hábito de ouvir a música da comunicação humana em vez de concentrarmos na letra.” Dr. David Livingstone Smith

O autor vai mais além:

“Os pretensos detectores de mentira devem descartar a sua compreensão quase automática a favorecer o discurso em detrimento da observação crua, a prestar mais atenção ao que as pessoas dizem do que como elas o dizem.”

Evidente que somos partidários de unir as duas técnicas: observação corporal e a análise do discurso. Todavia isto não é fácil, precisaríamos ser rápidos demais para trabalhar com os dois fatores ao mesmo tempo. Isto só se consegue com muitos anos de conhecimentos, vivências e práticas constantes.

Padrões

Antes de continuar, lembro que no mesmo discurso, quase sempre existem dois significados nas comunicações sociais, especialmente naqueles realizadas de forma inconsciente.

– Explícito – superficial, aberto, consciente.

– Implícito – codificado, oculto, inconsciente.

 

Exemplo: estudos científicos mostram que as pessoas de maior nível hierárquico  utilizam menos o pronome pessoal na primeira pessoa singular, mais o da primeira pessoa do plural e pronomes segunda pessoa do singular. (Ewa Kacewicz1, James W. Pennebaker1, Matthew Davis1, Moongee Jeon2, and Arthur C. Graesser3)

No mesmo estudo os autores relatam que o uso do pronome “eu” também tem sido negativamente associado a outras percepções de dominância. (Berry, Pennebaker, Mueller, &Hiller, 1997).

Isto é notado especialmente nas falas do ex-presidente lula. Além do pronome utilizado, a agressividade tanto verbal como a corporal é utilizada em larga escala.

Várias considerações são feitas a respeito deste tipo de estudo. Nos treinamentos de liderança no Exército existe o condicionamento para utilizar sempre o pronome “nós” em detrimento do “eu”.

O exemplo acima é só a ponta do iceberg, em artigos mais adiante vou me aprofundar neste fascinante tema.

Alguns padrões são analisados para observar a mentira na análise do discurso. De acordo com Noah Zandan existem quatro fatores:

  1. Os mentirosos se referem pouco a si mesmo quando mentem                               Escrevem ou falam mais sobre as outras pessoas. Utilizam de forma frequente a terceira pessoa. São escassos os usos do pronome “eu”.

Isto é mais do que natural, o mentiroso de maneira consciente e inconsciente deseja sair do foco e se afastar da mentira que está contando. Chamo isto de “distância preventiva”, junto com ela o mentiroso pode agregar outras informações que serão úteis a ele mais adiante.

 

  1. Os mentirosos tendem a ser mais negativos.

Aqui temos que excluir os mentirosos patológicos. Muitos sentem culpa por mentir. O remorso depende de características pessoais e para quem está sendo contada da mentira.

Além disto, a carga negativa, muitas vezes é acompanhada de raiva e outras emoções. Acrescenta dramaticidade ao fato descrito, desta forma o mentiroso acha que vai ter mais facilidade para convencer suas “vítimas”.

 

  1. Os mentirosos explicam os fatos com termos mais simples.

 Como dissemos acima, mentir gasta mais energia, a verdade já está pronta no cérebro.

  1. Os mentirosos utilizam de sentenças mais longas e muitas vezes complicadas.

Acrescentam palavras desnecessárias e detalhes irrelevantes, sem qualquer ligação com aquilo que descrevem. Ao ilustrar a estória com firulas, o mentiroso acha que isto vai encobrir outros detalhes importantes e assim facilitar o convencimento de suas vítimas.

A estes quatro fatores acrescentamos mais alguns:

  1. Lapsos de memória providenciais, tais como: me esqueci, não me lembro, não sou tão bom para recordar fatos.

Luxemburgo, técnico de futebol, “esqueceu” ao depor na CPI o dinheiro que tinha em contas bancárias.

 

  1. Buracos na estória.

O sujeito foi acusado de matar a esposa. Disse que saiu de casa pela manhã e quando voltou por volta das 20 horas a encontrou morta. Descreve como acordou, tomou café, se vestiu, despediu-se dela e o caminho para o escritório. Perguntado o que fez entre as 12 e as 15 horas disse que saiu para almoçar e não se lembra onde.

 

  1. No Brasil criaram uma nova forma de mentira com palavras.

Descrevem os crimes com frases rebuscadas. O grande jurista Márcio Thomaz Bastos, criou para a corrupção caixa 2 do mensalão o termo que se tornou um clássico: “recursos não contabilizados”. A presidente Dilma tem o hábito de chamar os crimes cometidos na sua gestão de “mal feitos” ou “maus feitos”.

 

  1. Evitam os fatos negativos que possam comprometê-los.

Embora o mentiroso tenha uma carga negativa nas suas declarações, como relata Noah Zandan; muitos dos mentirosos normalmente descrevem o seu mundo como perfeito. Aqui cabe uma lei: “quando tudo está certo demais é porque existe muita coisa errada.”

 

  1. Acréscimos de informações.

Mesmo depois que o mentiroso acabou de falar e você se dá por satisfeito, ele volta à carga e tenta reforçar alguns pontos que acha que não conseguiu convencer o interlocutor. Também é normal que isto ocorra imediatamente após a conversa terminar e até mesmo horas e dias depois.

10. Devolver a frase.

Em uma entrevista a repórter me perguntou qual a estratégia dos mentirosos. Brincando respondi qual era mesmo a pergunta e ela repetiu e eu perguntei se ela queria saber qual era a estratégia dos mentirosos. Rindo ela percebeu e mesmo respondeu. Ou seja, o mentiroso repete a pergunta para ganhar tempo.

11. Responder por antecipação. Prontidão de respostas.

Muitos mentirosos por pura prevenção dizem: “antes que você diga qualquer coisa, quero falar sobre…”; “Antes de você perguntar…”

12. Ato falho. Sobre isto vou escrever um artigo completo.

 

Evidente que em todos estes fatores existem várias considerações que são levadas em contas. Por isto tome certo cuidado, pois muitas mentiras não consideradas normais e aceitáveis.

Ah, sim. Quando a fala da presidente Dilma. Você pode concluir com certa facilidade onde ela se encaixa nos fatores acima. Mas se disser que não entendeu nada da frase, não se preocupe: vou concordar sem restrições.

Para terminar:

“A maioria de nós é constrangedoramente inepta para detectar mentirosos.” –  David Livingstone Smith.

 

 

Para saber mais: 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lingu%C3%ADstica_textual
http://www.linguisticstatementanalysis.com/
http://portal.virtual.ufpb.br/biblioteca-virtual/files/linguastica_textual_1360183766.pdf
http://www.cchla.ufrn.br/visiget/pgs/pt/anais/Artigos/Maria%20Eliete%20de%20Queiroz%20%28UERN-UFRN%29.pdf
http://www.parabolaeditorial.com.br/website/index.php?option=com_virtuemart&page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=178&Itemid=79&vmcchk=1&Itemid=79
http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/01638530701739181?journalCode=hdsp20#.VO4gmvnF9C0
http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/faculty/pennebaker/reprints/Deception.pdf
http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/faculty/pennebaker/Reprints/Kacewicz_Status_2013.pdf

 

Veja também:
Post 150. 05.2017 Linguagem corporal. Gestos de dominância. Determinação. 
Post 149. 05.2107 Linguagem corporal de Michel Temer no pronunciamento. 
Post 148. 05.2017 A linguagem corporal e os lábios torcidos.
Post 147. 05.2017 10 razões porque você precisa urgentemente aprender linguagem corporal.

 

Paulo Sergio de Camargo
Palestras – Cursos Linguagem Corporal – Coaching de liderança

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