Entrevista com Paul Ekman – Revista Veja

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A mentira de cada dia

O americano Paul Ekman é professor do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia em São Francisco. Autor de vários estudos e do livro Telling Lies (Contando mentiras), ele estuda a mentira e suas evidências há três décadas. De acordo com Ekman, ninguém mente sobre tudo – as pessoas só o fazem quando acreditam que a verdade pode ser prejudicial. Ele conversou com VEJA sobre mentira e política.

Por Tania Menai

VEJA – Quando mentem, as pessoas demonstram características óbvias?
Ekman –
Não existe uma única característica clara que denuncie um mentiroso, mas 90% das pessoas que mentem acabam se entregando por meio de 35 características comuns entre movimentos faciais involuntários, timbres de voz e gestos nervosos. São sinais sutis, que podem enganar facilmente.

VEJA – Quais são as técnicas que um profissional usa para detectar a mentira?
Ekman –
Os profissionais são capazes de perceber mentiras por meio de discrepâncias entre a voz e o rosto de quem fala, entre a voz e as palavras, entre as palavras e os gestos. Isso varia de pessoa para pessoa, mas basicamente procuramos por elementos que não combinam entre si. No meu livro, ensino a técnica, mas para aperfeiçoá-la é preciso orientação e aula.

VEJA – Uma pessoa é capaz de sustentar uma mentira por muito tempo?
Ekman –
Não sabemos. Há muita gente que sempre mentiu e nunca foi pega.

VEJA – É fácil pescar mentiras de pessoas conhecidas do grande público, como políticos?
Ekman –
Em certas circunstâncias sou capaz de fazer isso porque já trabalho na área há muitos anos. Acredito, porém, que ninguém votaria num político que não mente. Queremos que nossos representantes sejam bons negociadores, e em negociações ninguém revela a verdade ou os objetivos finais. Desejamos que um político nos diga a verdade, mas não queremos que ele diga a verdade ao seu opositor.

VEJA – O que o senhor já viu em um político que o levou a pensar: “esse está mentindo”?
Ekman –
Às vezes foram rápidas expressões faciais, outras foram o tom de voz – não há uma única coisa que evidencie a mentira. Temos que conhecer o comportamento natural do indivíduo e procurar a mudança de comportamento quando ele estiver falando sobre um assunto específico. Ninguém mente sobre tudo. Quando as pessoas suspeitam de um político, normalmente é sobre um determinado caso. Ele roubou dinheiro? Ele dormiu com aquela mulher? Ele manipulou infielmente as eleições? As mentiras são sobre temas específicos.

VEJA – O senhor diz que o ditador Adolph Hitler era um performer natural. O que significa isso?
Ekman –
Uma pessoa bastante talentosa, capaz de perpetrar suas mentiras e acreditar nelas. Hitler sabia que estava mentindo, era bem-sucedido nisso e convencia de uma maneira formidável. Todo mundo acreditava nele.

VEJA – Há alguém como ele hoje?
Ekman –
Vários. Saddam Hussein, por exemplo, diz que não está construindo armas de destruição em massa. Todos querem saber se é mesmo verdade, mas ninguém sabe. A televisão aumentou o número de pessoas que tem sucesso na política por saberem atuar. Isso não significa que elas mentem, mas se elas mentirem, se sairão muito bem. A maioria dos políticos de regimes democráticos atualmente precisa aparecer em público e ter uma boa imagem para ganhar votos. Eles precisam ter boa aparência e ser convincentes. Nos países onde não há eleições, isso não é necessário.

VEJA – Os ‘marqueteiros’, profissionais de marketing, são capazes de mudar a imagem de um político ruim de mídia?
Ekman –
Depende do talento pessoal de cada político. Sem habilidade natural, não há assessoria que ajude. Quem tem carisma, tem mais sucesso quando mente. O público quer acreditar nas pessoas carismáticas.

VEJA – Algum governo já lhe pediu ajuda para detectar mentiras?
Ekman –
Uma vez o governo americano me pediu para assistir a um vídeo de Mikhail Gorbachev, quando ele foi a público falar sobre Chernobyl ( o grave acidente nuclear na usina atômica, em 1986). No discurso, o então presidente da União Soviética disse que o caso de Chernobyl não era grave, nem deu detalhes sobre os riscos da radiação. Depois o mundo todo soube da seriedade do acidente. A dúvida dos americanos era: “ele estava mal informado ou mentia descaradamente?” Não pude responder. Não falo russo e não consegui comparar o discurso de Gorbachev com suas falas normais.

VEJA – Um de seus estudos aponta que expressões faciais podem significar distintas emoções em culturas diferentes. Maneiras de mentir também são diferentes em diversas culturas ou mentirosos são iguais no mundo todo?
Ekman –
Ainda não se sabe. Este tema nunca foi estudado.

VEJA – O detector de mentiras é confiável?
Ekman –
Há alguma utilidade para detectar crimes. Se o supeito passar no teste, isso pode significar que ele não cometeu o crime. No caso de ele não passar, deverá ser mais investigado.

VEJA – Digamos que nós, leigos, estamos assistindo a um debate de candidatos políticos na TV. No que devemos prestar atenção para pegá-los na mentira?
Ekman –
Não há muitas chances de fazer isso. Leigos não sabem apontar as diferenças.

VEJA – Quando os políticos estão em frente às câmeras, eles não estão mais nervosos? Isso não dificulta a mentira?
Ekman –
Isso poderia ocorrer com alguém como eu ou você, mas quando um político chega no topo de sua carreira, ele já adquiriu muita experiência, muito traquejo. Não fica nervoso por estar frente às câmaras.

VEJA – Então mesmo em frente às câmaras um político é capaz de mentir?
Ekman –
A maioria deles sim.

http://veja.abril.com.br//idade/exclusivo/021002/entrevista_capa.html

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