Adriano, o tiro e a proxêmica.

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Adriano, o tiro e a proxêmica

Na análise da entrevista do jogador Adriano, após o incidente do tiro disparado pela jovem dentro do carro, foi fácil observar pelas expressões faciais e corporais que o jogador falou a verdade durante quase todo o tempo. Disse entre outras coisas que estava no banco da frente.

Na observação da linguagem corporal o especialista precisa analisar o conjunto, não somente a pessoa, mas também o entorno dela, as condições, os envolvidos etc.

Embora a expressão facial sinalizasse verdade, a proxêmica poderia confirmar ou apoiar a maior precisão na avaliação. O nome é estranho, mas em meu livro Linguagem Corporal – Ed. Ágora, 2010 – explico:   

O estudo do espaço na comunicação humana recebe o estranho nome de proxêmica; palavra criada pelo antropólogo Edward Hall nos anos 60.  É definida como “o conjunto das observações e teorias referentes ao uso que o homem faz do espaço enquanto produto cultural específico”.                                                                                                F. Poyatos define a proxêmica com a “concepção, estruturação e uso humano do espaço, abrangendo desde o ambiente natural ou construído até distância conscientes ou inconscientemente mantidas na interação pessoal”.                                                                                  O estudo envolve dois parâmetros; o território físico e o pessoal. O primeiro pode ser demonstrado pela nossa carteira na escola, pela casa; cidade e país que vivemos.

No livro faço outras considerações, mas não entro no estudo das posições das pessoas em carros.

Em termos de diplomacia a posição onde cada pessoa senta nos carros é por demais rígida. As normas dos cerimoniais são seguidas com afinco.

Observe a posição da Rainha Elizabeth no carro, ela fica do lado direito e atrás. O marido em posição subalterna se posiciona do lado esquerdo, atrás do banco do motorista.                                  http://www.youtube.com/watch?v=HBh4QZO-6VI

Trata-se de uma posição clássica. O superior no banco de trás e do lado direito. Mas isto muitas vezes depende da cultura do povo.                Nos tempos de apartheid na África do Sul, o patrão não podia conduzir a empregada negra na frente do carro e a mesma era levada na mesma posição da rainha. Para nós brasileiros ficaria estranho observar um branco na frente “de motorista”, mas no segregacionismo (burro) era obrigatório.

Há anos estudo as posições das pessoas nos bancos dos carros brasileiros. Existem diversos fatores que condicionam a posição da pessoa, entre eles: o tamanho dos bancos e dos passageiros, muitas vezes este passa a ser o fator principal. “O dono das pernas grandes vai no banco da frente”.

A situação também deve ser levada em conta, como por exemplo, a direção da via, local etc. Algumas vezes ocorre de forma espontânea, outras não: na chuva, as pessoa podem entrar de forma aleatória no carro.

 Em linhas gerais, a pessoa de maior importância vai no banco da frente, se o motorista a convida a importância dada a ele é maior.         A de menor importância, muitas vezes se encolhe e vai atrás do motorista ou no meio do banco traseiro. O meio parece ser o local recusado pelas crianças, tendo em vista que gostam de ficar na janela e pelos adultos, por causa do desconforto do assento nesta posição. O certo é que é uma das posições menos requeridas, inclusive em termos de “posição social”, nas cerimônias oficiais é um dos locais de menor prestígio.

Em uma estatística, sem cunho científico, anotei mais de 800 pessoas entrando em táxis nos aeroportos. As mulheres sozinhas se posicionam no banco traseiro e á direita em mais de 98% das vezes. Nos homens esta percentagem cai para cerca de 40%, mas aumenta para mais de 65% quando estão de ternos. Todavia são dados que observei ao longo dos anos em vários aeroportos do Brasil, certamente precisam ser atualizados com mais rigor. A maioria das pessoas acha estranho a mulher sentada no banco dianteiro do táxi, quando isto ocorre, normalmente a passageira é parente do motorista. (sempre existem exceções)

Nos adultos ainda parece que existe importância na escolha do assento, a mais importante normalmente senta ao lado do motorista, especialmente se for o dono do carro e outro estiver dirigindo. Observei namorados que colocam o amigo ao lado e deixam a parceira no banco traseiro. Nos jovens, a importância em sentar na frente é menor,

Também é levado em conta quem conduz as pessoas para dentro do carro, se ela coloca todos no banco traseiro e fecha as portas é porque domina a situação.

As variantes são inúmeras, mas o certo é que em linhas gerais quem senta do banco da frente ao lado do motorista tem mais prestígio. Este é o caso de Adriano. Dificilmente ele entraria no banco traseiro e depois sentaria no meio, até pelo tamanho que possui. Como dono do carro não ficaria em uma posição subalterna. A proxêmica simplesmente confirmou as outras avaliações durante a entrevista.

 

 

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